1969

mil novecentos e sessenta e nove

Apr 1

kopimi

Como um hipocondríaco à procura da sua Doença Fatal, Isabela e Inácio se encontraram pela primeira vez por acaso, depois de muito penar,  durante um surto psicótico por que o país como um todo vinha passando – talvez devido à decepção geral com um novo milênio isento de catástrofes naturais sincronizadas ao redor do mundo, epidemias incontroláveis, ataques terroristas em massa – francamente, de qualquer coisa que viesse dizimar a raça humana de uma vez por todas. Os fogos de artifício não queimaram a mão de ninguém que não pudesse ter se queimado caso o ano fosse outro, e ninguém morreu além dos imperdoavelmente azarados. Com efeito, o número de mortes causadas por defeitos de fabricação ou falta de cuidado no manejo dos explosivos foi bem menor que o habitual – o que não impediu que o de acidentes envolvendo redes elétricas e o ocasional passarinho que pousa na hora errada no lugar errado aumentasse como o próprio foguete subindo, entre outros milhares, ao céu estrelado de Copacabana.

Era a época “vanguarda” de Inácio, e o Rio de Janeiro a cidade “vanguarda” do Brasil. Não havia um motivo mais específico pra que ele se encontrasse aqui, a bordo de um cruzeiro ilegal, bêbado a ponto de vomitar mais uma vez sobre o convés coberto de todo o lixo da noite. Uma pomba o encarava a certa distância imponderável, pronta pra levantar vôo e ir levar o relatório ao mestre. No entanto, antes que ela pudesse sequer pensar em se mexer, Inácio estrebuchou e lançou na sua direção umas migalhas do pão que apanhara meia hora atrás e acabara de encontrar misteriosamente dentro do bolso do paletó.

Ela decidiu ficar. “Seja boazinha, pombinha…” Ele disse. A pomba não respondeu – em vez disso, parecendo vir do mar, uma voz:

“É melhor você entrar e pegar um casaco, meu filho.”

“Ah, era só o que faltava. O mar é judeu.”

“Algo contra?”

“Eu pensava que Deus era crente.”

“Nem um, nem outro,” respondeu a figura materializada de Isabela; “Deus é como você, só que mais gordo.” Ela trajava um longo azul-celeste de um material reluzente, saltos-agulha invisíveis sob as bordas,  e parecia antes deslizar sobre um par de patins que andar como um ser humano normal. Ela vinha passando por uma fase meio zen-budista, considerando respostas deste tipo ao mesmo tempo a moeda de troca e a mercadoria mais valiosa entre dois possíveis indígenas amestrados (???). Uma confusão pequenamente ocidental (???). No estado em que se encontrava, Pop não entendeu, e continuou pensando que se tratava do mar por umas boas horas – apenas se disfarçara de mulher, e vinha finalmente pra reclamar a posse sobre a sua carcaça. Mas ela era bonita, isso ele sabia, e você estava solitário, tão solitário que dói…

Se você estivesse no lugar de Inácio, portanto, provavelmente cometeria o mesmo erro: levá-la-ia ao seu quarto e passaria a noite com a cabeça repousada sobre o ventre da Mãe-Água. (…)


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