kopimi
É verão. Calor, água mineral, sol, mulheres bonitas, mas nem tanto – nem todas, pelo menos –, e você, saindo de casa pro trabalho, se depara com um macaco gigante. Imagine só. Ele tem uma cabeça enorme, maior que o seu corpo, e aparentemente fome também, porque está subindo num prédio – não é o King Kong, mas um primo mais velho dele, talvez, enviado por acidente ao Brasil por conta de um molho de aspargos. É que, lá no Japão, um certo garoto que simplesmente não se agüenta quando vê aspargos perdeu completamente a razão, começou a pular feito o Pica-Pau, e acabou batendo na trinca da jaula do macaco – uma coisa enorme, assim como um arranha-céu, só que mais larga também. O japonês em questão é um boleteiro incorrigível, está sempre em estado de hiperalerta, não se pode confiar muito nele, não – isso sem contar os litros de saquê que bebe todos os dias, depois do expediente… O aspargo que o fez cometer tal loucura é curiosa, ironicamente até, brasileiro, vejam só, e nem é dos melhores – foi cultivado no nordeste, numa época do ano em que mais se ganharia dinheiro plantando cana. Mas a palavra de ordem é diversificar. Você sabe como os solos ficam se submetidos ao regime da monocultura estrita…
Então o macaco/King Kong fajuto está na sua cidade. E você é um repórter. O tempo é agora: as câmeras digitais estão amplamente disponíveis no mercado, não tem a desculpa da falta de filme, não tem sequer a desculpa de estar sem pilhas – não com aqueles modelos novos, que você recarrega a bateria e pronto. Só um idiota fica sem bateria com as novas; você, sabidamente, não é idiota. Isso é o que pensam quando vêem você aqui, no meio destas pessoas todas tão sofisticadas. Com efeito, trata-se de uma cidade toda diferente, não como a sua, mas muito mais pra Nova York: aqui as pessoas todas carregam pacotes, apressam-se na direção dos centros comerciais, sorriem amigavelmente um sorriso de quem sabe penar, de quem sabe sofrer com elegância, todo isento do menor resquício de rancor e esses sentimentos que a sua mãe lhe disse serem feios. Você é um deles, totalmente integrado, totalmente à vontade – mas o mero fato de pensar no assunto já significa alguma coisa… O quê? Alguma diferença? Se todos pensassem a mesma coisa, você continuaria sendo igual a eles. O problema é que não dá pra saber – você compra o chapéu da moda, na falta de alternativa, e sai, quinta avenida abaixo, esperando que uma câmera esteja apontada na sua direção.
Você dobra uma esquina. Um homem encapuzado vem e lhe pergunta algo que você não consegue entender. É uma língua estranha, a deste lugar, totalmente diferente do português. Não é sequer o inglês, que você aprendeu pela metade no colégio; nada reconhecível, em absoluto. Ele aponta pro macaco no topo do edifício. Onde o espanto? Com que freqüência algo desta envergadura acontece, tão fantástico quanto qualquer onze de setembro, tão aberrante quanto toda esta neve num calor de trinta e cinco graus?
Onde a sua câmera?
Um helicóptero passa pelo céu carregando um piano. A corda cede aos poucos, mas não tão aos poucos que não seja possível reconhecer que está cedendo. Você está no terraço do maior shopping da cidade, único espaço em todo o centro em que ainda é permitido fumar, tomando um milk-shake com o homem encapuzado. Estranhamente, este homem é também a Arquitetura. Os seus cabelos são ondulados, revestem o crânio apenas o suficiente pra que ele se faça escondido. Um segredo terrível sairia debaixo daqueles cabelos; fachadas de vidro eclodiriam se você lhe arrancasse o capuz, e novos materiais seriam condensados do ar diante dos seus olhos. O homem está lhe explicando algo, agora na sua língua. Mas faz pouca diferença: você não entende e nem quer entender sobre o sistema de irrigação do Egito antigo, não se interessa em absoluto por cordas, nem por pianos, nem por helicópteros…
A sombra dele varre repetidamente a superfície do terraço. “Olha, eles vão acertar o macaco com o piano!” Você diz.
“Vai sonhando,” o homem responde. Belo estraga-prazeres que ele é, você percebe que está mesmo sonhando e acorda. Você é João Agnossos, baba escorrendo do canto da boca, e está atrasado pro trabalho outra vez.