1969

mil novecentos e sessenta e nove

Mar 30

Mar 29

kopimi

Um tipo de música semi-clássica vai ficando cada vez mais clara – qualquer coisa amena, uma marchinha patriótica ou algo do tipo, beirando agora a  tarantela, agora o chorinho, a clarineta se levantando, descrevendo círculos em torno de si mesma e tornando a cair… O sol vai alto; a lente refrata a luz em vários pontos coloridos pela tela. Sem mais nem menos, quando você já estava pensando em fazer uma visita à geladeira, uma garota aparece no caminho ladeado por campos verdejantes até onde a vista alcança. Ela é loira e traz os seios descobertos por baixo de uma blusinha de seda transparente – isto é motivo suficiente pra ficar. E a coisa só melhora, que atrás dela, seguindo de perto na caçamba de uma Toyota verde da década retrasada, vem a sua bandinha particular, composta por cinco homens, um macaco e uma arara mais ou menos meramente representativa. A cena se desenvolve linda e monotonamente, mas de uma monotonia boa.  Passantes param pra observar aquele grupo mais feliz que eles, quase como na música do Chico.

Uma viatura da Polícia Militar acompanha-os de longe. Lourenço Mutante, um dos encarregados dos tambores, lança-lhes olhares desconfiados de quando em quando. Seguem-nos há mais de uma hora, e ele não vê mais ameaça nenhuma – a não ser que eles estejam a fim de que alguém faça alguma coisa errada, caso em que provavelmente vão dar um jeito de achar que estão fazendo. Quem vê pensa que eles estão lá pra fazer a proteção, como nas corridas da tevê. Que piada.

Muslim vai no outro tambor, cuja pele comprou de um paraguaio que alegava se tratar de couro humano legítimo; Raquel, a musa do grupo, vai no sax; Rafaela sopra a sua flauta doce, rápida como um passarinho. Quem vai na clarineta é Muramar, o membro fundador do grupo. Junto com a arara e o macaco, que se chamam, respectivamente, Arara e Macaco, eles formam a Banda Itinerante Muramar; e, conforme reza o slogan, estão aqui pra te alegrar. 

Agora eles cruzam o Parque São Lourenço, próximo à Rodovia dos Minérios, assim chamada porque conduz à Pedreira Paulo Leminski, passando no caminho pela Ópera de Arame. É à primeira que eles se dirigirão daqui a algumas horas, por ocasião do show de estréia de uma banda composta por uma coleção de amigos seus. Eles contam com a possibilidade de abrir o show, razão porque cobraram de Isabela, a menina loira, só metade do cachê habitual.

Desativada há décadas, a pedreira serve agora como palco dos grandes espetáculos do entretenimento de Curitiba e de qualquer cidade ou país que queira vir tocar aqui pra um público maior que vinte mil pessoas. Com a grande reforma operada lá pelos anos dois mil, trata-se agora mais de uma chácara que qualquer outra coisa: um grande campo gramado se estendendo pra todas as direções, com direito a morrinhos simpáticos, árvores frutíferas, barraquinhas de cachorro-quente e  bancos de pedra-pomo. Atrás de um bando de árvores mais velhas cujas intenções talvez não sejam lá das melhores – as árvores da cidade são sabidamente um grupo muito unido, como os sindicatos, e como os sindicatos um pouco unido demais, a ponto de pregar peças em algumas pessoas na defesa dos seus direitos – atrás delas, entrevisto pelas folhagens de resto camaleônicas, um lago de profundidade considerável espreita, refulgindo sob  a tarde enquanto espera abocanhar a sua quota de adolescentes bêbados de cada apresentação. Ao redor do palco o piso é tão batido que nada mais cresce, nem grama nem ervas, legais ou não; mas não importa, uma vez que elas podem ser encontradas em grande quantidade nas soirées lotadas, trazidas direto do Paraguai, enfiadas nas roupas de baixo de adolescentes imberbes e até nos charutos cubanos de alguns dos seus pais. A polícia não tem como controlar, e não seria recomendável que tentasse mais do que já tenta, sob pena de parecer idiota.

O maior erro que alguém pode cometer dentro da pedreira é tentar acender um baseado em alguma das suas áreas isoladas, onde não há público, nutrido da ilusão de que não há testemunhas. Câmeras espiam dos galhos das árvores, e nem todas estas, inimigas número um da tecnologia, conseguem se mover o suficiente com a ajuda do vento ou por vontade própria mesmo pra fazer com que caiam. Assim que você se aproxima com algo que lembre de longe um cigarro não-industrializado, cheirando a, digamos, maconha, uma luz vermelha se acende na cabine de segurança, e um brutamontes é enviado pra te dar uma surra. O melhor é sentar-se entre a galera, antes do começo das apresentações, ali onde o policiamento é impossível e a camaradagem impera com autoridade de Alcorão, e se fazer à vontade. Esta abordagem apresenta apenas dois problemas, ambos de menor importância: nem sempre você consegue fumar o suficiente pra ficar louco, visto que a camaradagem também impõe a solidariedade pra com quem esqueceu o cachimbo em casa; e às vezes, muito raramente, um policial a paisana pode pegar você em flagrante, arrastá-lo pra fora da pedreira pelo braço, deixar marcas, conduzi-lo até a Décima-Terceira Delegacia de Polícia, localizada estrategicamente apenas duas quadras acima; e aí você se fodeu, literalmente, nas mãos e outros membros impronunciados do Delegado Pimenta & Cia.

Felizmente, pouca gente chega a este ponto, instruídos que são pelos maconheiros da área. O Delegado bem tenta, mas faz dias que não come ninguém, louvada seja a sua falecida esposa e que Deus a tenha. Ele se sente melancólico hoje, exatamente o estado de espírito em que deve estar pra poder fazer as suas maiores atrocidades. E aí vem ele, no seu jipe oficial, estacionando numa das vielas que tangenciam a Rodovia dos Minérios já congestionada. Logo atrás, a não mais de dez metros, vêm descendo Isabela com a banda, chamando a atenção dos motoristas mais atacadiços. Buzinas e gritos cheios de testosterona se fariam ouvir quando ela passa, não fosse pela banda, e seria impossível agüentar a vergonha… A bem dizer, talvez tenha sido por isso mesmo que ela decidiu contratar os caras, apesar do preço tão alto. A música que eles tocam lhe parece extremamente enfadonha, cheia de firulas militares, naipes de metal faltando em uma outra canção bem conhecida, e o barulho descompassado dos tambores doendo-lhe nos ouvidos…

Mas, na verdade, isso não importa muito: ela não está aqui pra se divertir. Isabela é a namorada de Inácio Papoula, o Pop, e veio a serviço do Ministério. As suas ordens, confusas e reticentes como sempre, são mais ou menos no sentido de entrar em contato com um espião da casa infiltrado na GEL. Os acontecimentos dos últimos dias já foram o suficiente pra deixar Pop fora de si; tudo o que ela puder fazer pra esclarecer a situação, mesmo que não seja quase nada, ela sendo quem é – uma mulher –, será um esforço válido. Ele até quis vir no seu lugar, temeroso de que ela estragasse tudo, mas ela não conseguiu agüentar o que definiu como uma afronta a todos os esforços de conquista de direitos do século passado.

“Você se refere àquela montoeira de sutiãs queimados,” disse Pop. Eles estavam no quarto dele, na casa abandonada; Isabela mastigava os próprios lábios desde que fora mencionada pela primeira vez no dia a palavra “revolução”.

“Isso e muito mais, seu babaquinha pequeno-burguês.”

“Olha quem fala.”

“Blé,” ela respondeu, mostrando a língua. Nada com o que se preocupar: eles entretêm trocas de farpas como esta quase que diariamente, e já não sabem se estão falando sério. Isabela se irrita de verdade, às vezes, menos com o teor daquilo que Inácio diz que com a facilidade mecânica com que o diz – como se estivesse acostumado a ser um porco, e muito bem assim.

Eles chegam à entrada, ainda sem muita fila além da dos vendedores ambulantes e daqueles que só esperam pela chegada de outros; estacionam a Toyota num pedaço de chão e se misturam ao turbilhão de gente. Isabela parece intocável à banda. Quando Muramar se aproxima, querendo puxar conversa, ela responde algo incompreensível e se cala, e ele logo entende que não é bem-vindo. O Macaco e a Arara brincam um com o outro dentro da mochila em que foram se esconder, chamando a si um grau perigoso de atenção dos sentinelas. Eles passam pelas catracas, de todo modo, e lá dentro não há quem dê conta de que animal é de quem: há macacos, araras, papagaios, cachorros, gatos, tartarugas, lagartos e até um ou outro leopardo descansando na sombra de mangueiras centenárias. Por todos os lados músicos brandem os seus instrumentos, cobrindo a tarde com uma agradável textura de dissonâncias. A banda combina um horário de encontro depois do show e se dispersa, cada um indo cuidar dos seus negócios.

Isabela sai à procura do seu agente. Conhece-o por fotos, apenas; meia hora depois que entrou, já se arrepende de não ter ido mais a fundo na investigação do seu histórico, pelo menos a ponto de não poder se enganar caso qualquer um chegue alegando ser quem ela quer que seja. 


Mar 28
Jean-Luc Godard does a hand-stand for Jacques Doinol-Valcroze

( esta imagem e a logo abaixo do site http://tsutpen.blogspot.com )

Jean-Luc Godard does a hand-stand for Jacques Doinol-Valcroze

( esta imagem e a logo abaixo do site http://tsutpen.blogspot.com )


Um Gary Snyder pra você, baby.

Um Gary Snyder pra você, baby.


Mar 27
[Flash 9 is required to listen to audio.]

William Tell Overture - Spike Jones


Xuxa diz que tem orgasmos múltiplos

Xuxa falou, em entrevista ao “Altas Horas”, ontem, em SP, que tem orgasmos múltiplos e dorme sem calcinha. Ela também reafirmou que viu um duende. E contou detalhes. Disse que uma vez tinha um debaixo de sua cama, puxando o edredom. Ivete Sangalo gravou o programa de Serginho Groisman com Xuxa. A cantora negou que esteja grávida. Vai ao ar neste sábado, na Globo. (Colaborou Miguel Arcanjo Prado)

notícia do UOL.


Mar 26

kopimi

Pó incrustado em cada desvão levanta-se em rastros ao mínimo roçar dos pés, cada partícula refletindo um pouco do sol, querendo contar alguma coisa… bem, talvez elas queiram mesmo; mas, no último momento em que seria possível começar, bamboleiam no ar, dão a derradeira pirueta e definham… Ah, o grito das células mortas enchendo o nariz e os olhos! As histórias que se perdem nestes rastros, contadas de geração de células mortas a geração de células mortas, todas elas apontando pro amontoado orgânico que atravessa o hall de entrada, e o diálogo, Olha, filhinha, que bicho estranho que vem entrando, e a filhinha responde, Que nojo, papai!, e o papai por sua vez argumenta, Não fale assim, filha, que um dia eles serão como nós, pois de nós vieram, no melhor estilo didático que a sua mente de partícula microscópica consegue pensar. Como assim, papai?, e o pai, complacente, termina de cumprir o seu dever pra com a verdade – a pergunta é o equivalente de “de onde vêm os bebês?” das células mortas: Bem, filha… eu sou o seu pai, não sou? não te digo tudo o que você pergunta? e, neste caso, a verdade, verdade mesmo, é que nós já fomos assim também…

Silêncio mortal. Um relógio bate as horas, derrama mais poeira, ritmado, e logo o tinido do tempo recomeça… e, de repente, a partícula filha tem uma revelação – mas de uma ordem que a nós, amontoados vivos, não nos é dado compreender… Mais de metade da poeira de uma casa é composta de células mortas, cuja revelação final se traduz em espirros. Milhares de partículas são lançadas pra fora do seu nariz a uma velocidade impressionante. Do lado de lá – do além-túmulo –, elas gritam de prazer:  Uhuuuu cara, isso é melhor que montanha russa, de novo galera, vamo lá, é um, é dois, é três e –

Enquanto sobem as escadas, João, cuja capacidade paranormal não chega a tais distâncias, e Karen, que, como se viu, não é lá muito de pensar, estão bem longe de saber que tipo de coisa bizarra é essa agora. Não que já não tenham se perguntado. Uma entrevista com o novo Drácula, aparentemente – repare na sua semelhança com o Inri Cristo, gente! – e risinhos histéricos eclodem do choque de partículas invisíveis, todas bem matreiras, mais ou menos como se estivessem voltando à vida. Tudo bem a tempo, a risada da punchline, como num seriado americano. As cortinas estão quase todas fechadas, encobrindo vidros na maior parte já inexistentes; um gotejar lá em cima, e aplausos, aplausos, aplausos das células mortas.

“Você tá ouvindo isso?” Pergunta Karen.

“Coisa de casa velha,” João responde.

Assim eles sobem as escadas. Um novo ranger a cada degrau, e um novo susto de Karen, que, aproveitando-se do clima de terror barato, agarra bem forte o braço de João. Ratos guincham ao redor das pernas dos dois, mas não há nada a fazer: os imperativos do Diretor foram claros como sempre, e desta vez ele parecia falar muito sério. Karen começa a se arrepender de ter vindo – coisa que faz João rejubilar-se internamente.

Uma hesitação da luz: por alguns momentos, coisa de décimos de segundo, parece que tudo se apaga. Isto não seria, por acaso, um filme? Não se sucederiam clichês atrás de clichês, o preto-branco justa e sobreposto ao colorido com intermitências de tecnicolor, as luzes vazadas de um policial noir e de um faroeste – e o tema, o tema sempre escondido por trás de imagens cujo objetivo é mesmo esconder? Frankenstein, Drácula, Terra de Ninguém ou Gasparzinho, o Fantasminha Camarada, não importa: todos eles tinham algo em comum com esta casa, e, o que é mais, com a missão de João e Karen nesta casa. Eles sentem-no confusamente, agregando camadas de dúvida ao filme dos filmes já oxidados nas suas mentes. Então, como se o mundo fosse bom, tudo retorna ao normal, as coisas postas nos seus devidos lugares, e você se pergunta se está ficando louco – ou então, se for suficientemente autoconfiante, tenta conferir com quem quer que esteja ao seu lado no momento.

“Você viu isso?”

“Acho que não…” E, no meio de tanto medo, isto soa conclusivo.

A próxima cena, por sua vez diretamente extraída de uma miríade de musicais da Broadway, envolve um órgão, o escuro, a casa assombrada e fantasmas que podem ou não estar lá. As notas rolam escada abaixo, fluídas quando graves, correndo feito angu bem molhado; as mais altas saem como um novo tipo de metal, tão leve e ao mesmo tempo tão pesado que vai rasgando os nervos no caminho até o cérebro. É uma coisa realmente esquisita, e nada do que se possa dizer vai mudar o fato de que eles se sentem observados. Mais: a subida desta escadaria parece-lhes agora uma empresa de séculos. Eles suspiram alto, pra afastar os outros ruídos; quando dão por si estão inseridos numa comédia de costumes, numa alegoria dos rumos nacionais, – numa palavra, em qualquer coisa que, a rigor, não se pode chamar de vida. Há um cheiro aqui também – cheiro de enxofre e gente morta misturado ao perfume forte e doce de velha que João costumava sentir, quando pequeno, no elevador do seu prédio. Da miniatura de um barco a vapor sobre rodas, que entra esfumaçando todo o vestíbulo logo à frente das escadas, uma maçã mordida algumas vezes é lançada ao ar por um sistema de molas conectado à parede. Eles a observam atentamente, e assim falham em perceber o vulto negro que se aproxima por trás…

 “Bem-vindas à minha humilde residência, mortais!” Canta a voz gutural, meio abafada por uma máscara toda incrustada de strass. João e Karen ficam atônitos e imóveis. Até que, esforçando-se por fazer qualquer coisa e não ficar ali parecendo um banana, João se vira e dá um soco bem no meio da cara do fantasma.

“João! Coitado!” murmura Karen, inclinando-se sobre o corpo caído.

“…” Responde João.

“Aaaaaah…” Responde o fantasma, que já se levanta e começa a se desculpar pelo susto – é só a maneira que o seu chefe o instruiu a receber qualquer visitante, pra espantar os despreparados. O seu nome é Karl Rossmann, e ele é um imigrante alemão com um sotaque fortíssimo – o que ele prova abrindo o passaporte na página da foto, mostrando a permissão pra estar aqui do governo brasileiro, não se trata de nenhum ilegal, não senhor! Não obstante isto já satisfaça a desconfiança dos jornalistas, ele continua com o monólogo narrando as suas funções na casa, do início ao fim do dia, um rol de atividades tão variadas quanto alimentar os lagartos do jardim e passar pó-de-arroz sempre que a menor gota de suor ameaça brotar dos seus poros – isto sem contar toda a parte de jardinagem, se é que eles tinham reparado no jardim lá fora – ele é barista, jardineiro, cozinheiro, motorista, vigia e espantalho num só homem, e ele ainda nem mencionou que concluiu o equivalente alemão do nosso ensino fundamental com honras, pelo que recebeu do Ministério da Educação diversas medalhas brilhantes e convites pra discursar em universidades menores… Durante este discurso João tem tempo de apaziguar um pouco os nervos. Ele sabe que a sua abordagem está longe de ser profissional; cumpre pelo menos não sair dando pancada no chefe do fantasma, o homem que, se ele estiver certo, é quem eles vieram entrevistar.

“O seu chefe é o Inácio, certo?” Interrompendo uma narrativa de infância em que, ao lado de lobos famintos, o pai do fantasma figura, e com uma espingarda na mão, numa noite de lua cheia, próximo ao cemitério municipal do vilarejo em que viviam.

“Ele mesma,” responde o fantasma. Com um gesto da mão, ele faz com que os visitantes sigam os seus passos. 


Palace of Soviets - da Moscou jamais terminada.

Palace of Soviets - da Moscou jamais terminada.


Inherent Vice, Thomas Pynchon - pro fim de 2009.

Inherent Vice, Thomas Pynchon - pro fim de 2009.